Bediuzzaman Said Nursi nasceu em 1876 no leste da Turquia (na aldeia de Nurs) e morreu em 1960 em Urfa, na Turquia. Encontra-se em fase final a publicação do livro “Islam na Turquia Moderna” de Şükran Vahide, que é uma pesquisadora e tradutora que tem dedicado as últimas décadas exclusivamente ao Risale-i Nur; neste livro pode-se encontrar com profundidade sobre a longa e exemplar vida de Bediüzzaman, que se estendeu das últimas décadas do Império Otomano, passou por seu colapso após a Primeira Guerra Mundial e a criação da República, viveu os vinte e cinco anos do Partido Republicano do Povo, partido bem conhecido por suas medidas radicais contra o Islam, seguido pelos dez anos de democracia, quando as condições para Bediüzzaman foram um pouco facilitadas.

Aqui mencionaremos apenas alguns pontos relevantes que ajudarão a compreender as palavras do Risale-i Nur. Com este mesmo objetivo, alguns pontos gerais sobre o método do Risale-i Nur, que são particulares a Bediüzzaman para ensinar as verdades corânicas, serão incluídos.

Bediüzzaman mostrou-se possuidor de inteligência extraordinária e grande capacidade de aprender desde a mais tenra idade, completando o curso normal da educação em uma madrassa (escola religiosa) aos 14 anos de idade, e obteve o seu diploma. Tornou-se famoso por sua memória prodigiosa e seu talento para debater com outros eruditos religiosos. Outra característica de Bediüzzaman era a insatisfação, que carregava desde a infância, em relação ao sistema educacional existente, o que o levou quando mais velho a formular propostas abrangentes para uma reforma.

O centro dessas propostas foi a união do ensino das ciências modernas com o ensino tradicional da religio, além de um projeto de fundação de uma universidade nas Províncias Orientais do Império, a Medresetü’z-Zehra, onde esta e outras propostas seriam postas em prática. Em 1907 seus esforços neste campo o levaram a Istambul onde conseguiu uma audiência com o sultão Abdulhamid. Embora posteriormente ele houvesse recebido a aprovação dos fundos para a construção de sua universidade, ela nunca foi concluída devido à guerra e as vicissitudes dos tempos.

Ao contrário da prática dos eruditos religiosos naquela época, Bediüzzaman estudou e dominou quase todas as ciências físicas e matemáticas, e mais tarde estudou filosofia, pois acreditava que só assim a teologia islâmica (kalâm) poderia ser renovada e responder com sucesso aos ataques aos quais o Alcorão e o Islam estavam sendo sujeitos.

O próprio Bediüzzaman descreveu um acontecimento em sua juventude que foi decisivo para dar-lhe uma direção, que foi tomar conhecimento das ameaças explícitas ao Alcorão feitas por Gladstone, o Secretário Britânico para as Colônias. A intenção de Gladstone era descrever o Alcorão como um livro ilegítimo e supersticioso, o que seria a única maneira que os ingleses teriam para definitivamente dominar os povos islâmicos e realizar suas ambições. Este motivo despertou uma poderosa reação em Bediüzzaman.

Ele jurou: “Provarei e demonstrarei ao mundo que o Alcorão é um sol eterno e inextinguível!” A partir desse momento ele se empenhou em empregar seu conhecimento superior tanto das ciências tradicionais religiosas quanto das modernas a serviço do Alcorão. Para provar sua miraculosidade e defendê-la contra os ataques, que eram em grande parte em nome da ciência e do progresso, e relacionar as verdades corânicas à luz dos avanços modernos no conhecimento, ele se empenhou em provar que, contrariamente às reivindicações de seus inimigos, o Alcorão era a fonte do verdadeiro progresso e da civilização, e além disso, sendo assim, o Islam dominaria o futuro, apesar de seu relativo declínio e regressão naqueles tempos.

Com o passar do tempo, as ciências físicas foram abandonadas pela educação nas madrassas, o que contribuiu diretamente para o declínio otomano em contraposição ao avanço do Ocidente. No século XIX e início do século XX, a Europa conseguiu domínio sobre o mundo islâmico, e entre os esforços para estender seu domínio, atacava o Alcorão e o Islam em nome da ciência e do progresso, em particular alegando falsamente que eles eram incompatíveis. Dentro do Império também havia uma pequena minoria que favoreceu a adoção da filosofia e da civilização ocidentais.

Os anos do séculos XX até o final da Primeira Guerra Mundial foram as duas últimas décadas do Império Otomano e foram, nas palavras de Bediüzzaman, o período do ‘Velho Said’. Ele se esforçou para servir a causa do Império e do Islam por meio do envolvimento ativo com a vida social e no domínio público.

Durante a guerra, ele comandou as forças da milícia na frente caucasiana contra a invasão dos russos, mais tarde foi-lhe concedida uma medalha de guerra por isso. Para manter a moral de seus homens, ele próprio desdenhou entrar nas trincheiras. Apesar dos bombardeios constantes, ele foi suportando os assaltos esmagadores do inimigo, em meio a isso, ele escreveu seu célebre comentário do Alcorão, Sinais de Miraculosidade, ditando a um escriba enquanto montava seu cavalo. Afirmando que o Alcorão engloba as ciências que tornam conhecido o mundo físico, o comentário é uma obra original e importante que reúne as ciências religiosas e modernas a maneira que Bediüzzaman propôs, e explica a miraculosidade da ordem dos versos e das palavras no Alcorão. Bediüzzaman foi feito prisioneiro em março de 1916 e mantido na Rússia por dois anos até escapar no início de 1918. Retornou para Istambul através Varsóvia, Berlim e Viena.

A derrota dos otomanos viu o fim do Império e seu desmembramento, além da ocupação de Istambul e partes da Turquia por forças estrangeiras. Estes anos amargos viram também a transformação do “Velho Said” no “Novo Said”, o segundo principal período da vida de Bediüzzaman.

Apesar da aclamação que recebeu pelos serviços prestados como membro do Dar-ül-Hikmet-il-Islâmiye e por combater os britânicos, Bediüzzaman sofreu uma profunda mudança mental e espiritual, como resultado ele deu as costas ao mundo e, percebendo a inadequação da ciência e da filosofia “humanas” que estudara como um meio de alcançar a verdade, tomou o Alcorão revelado como seu “Único Guia”.

Em reconhecimento por seus serviços à luta da independência, Bediüzzaman foi convidado a Ankara por Mustafa Kemal (Atatürk), mas chegando lá viu que ao mesmo tempo da vitória dos turcos e do Islam, idéias ateístas foram propagadas entre os deputados e funcionários públicos, e muitos eram negligentes com os seus deveres religiosos. Ele publicou vários trabalhos para combater essa tendência e reavivar a crença.

Permanecendo por volta de oito meses em Ankara, Bediüzzaman compreendeu a maneira como Mustafa Kemal e os novos líderes iriam governar. Entendeu que ele não poderia trabalhar ao lado deles e que eles não deveriam ser combatidos no âmbito da política. Através de um hadise, compreendeu que algumas pessoas e os terríveis comitês do Akhir-uz-zaman, a saber, o Dajjal e seu Comitê, estavam iniciando suas atividades destrutivas dentro do Estado Islâmico da Turquia, e também pelo mesmo hadise, ele concluiu que aquelas forças destrutivas contra o Islam poderíam ser derrotadas apenas pela foça da “Espada Espada Espiritual do Alcorão”. E assim, quando Mustafa Kemal lhe ofereceu vários postos e benefícios, ele os recusou e partiu de Ankara para Van, onde se retirou a uma vida de adoração, contemplação e ensino.

Em pouco tempo, as suspeitas de Bediüzzaman sobre o novo regime começaram a se mostrar reais: os primeiros passos foram dados para a secularização e para reduzir o poder do Islam dentro do Estado, e até mesmo a sua erradicação da vida turca. No início de 1925 houve uma rebelião no leste em que Bediüzzaman não desempenhou qualquer parte, mas como consequência do qual foi mandado para o exílio na Anatólia ocidental, juntamente com muitas centenas de outros.

Assim, injustamente foi o início de vinte e cinco anos de exílio, prisão e opressão ilegal contra Bediüzzaman. Ele foi enviado para Barla, uma pequena aldeia nas montanhas da província de Isparta. No entanto, a tentativa de isolá-lo e silenciá-lo completamente teve um efeito inverso, pois Bediüzzaman estava preparado e qualificado unicamente para enfrentar o novo desafio:

Estes anos (1926-1934) viram a escrita do Risale-i Nur, que se espalhou e enraizou silenciosamente, combatendo da maneira mais construtiva a tentativa de arrancar o Islam da vida social turca, a descrença e a filosofia materialista que se esperava incutir nos muçulmanos.

Assim, pode ser visto a partir disso que o Risale-i Nur foi escrito para expor e explicar as verdades do Alcorão e a fé ao homem moderno, perplexo como ele é pelos ataques da filosofia materialista, de modo que ele possa alcançar a verdade e sua crença não seja abalada por esses assaltos ideológicos. Ao explicar estas verdades, o Risale-i Nur demonstra a superioridade do Alcorão em todos os aspectos e, embora, “para não causar aversão”, as idéias da filosofia são rara abertamente declaradas, é uma refutação sutil da filosofia materialista ocidental.

Deve-se afirmar aqui que Bediuzzaman não era anti-ocidental, na verdade, ele diferenciou entre a filosofia prejudicial e a benéfica, e esperava a salvação de toda a humanidade – mas foi intransigente contra a incredulidade e o ateísmo que se opõe à religião; nos últimos tempos o veneno tem sido principalmente filosofias materialistas como o positivismo e o naturalismo, que usam a ciência para justificar suas idéias.

Como “Novo Said”, Bediuzzaman imergiu-se no Alcorão, procurando uma maneira de relacionar suas verdades com o homem moderno. Em Barla, em seu isolamento, ele começou a escrever tratados explicando e provando essas verdades, neste momento, o próprio Alcorão e suas verdades estavam sob ataque direto. O primeiro deles foi sobre a “Ressurreição dos Mortos”, que em um estilo único, prova de forma racional a ressurreição corporal, onde até mesmo os maiores estudiosos já haviam confessado sua impotência. Ele descreveu o método empregado como consistindo de três estágios: primeiro, a existência de Deus é provada; Seus Nomes e atributos; então a Ressurreição dos Mortos é “construída” sobre eles, e provada. Bediüzzaman não atribuiu esses escritos a si mesmo, disse que procederam do Alcorão em si, que foram “raios cintilantes das verdades do Alcorão”.

Assim, em vez de ser um comentário do Alcorão que expõe todos os seus versículos, dando os motivos imediatos para sua revelação e os significados aparentes das palavras e frases, o Risale-i Nur é conhecido como Tafseer-i Manawi, ou comentário que expõe as verdades do Alcorão, isto é, explica e prova os versículos que contêm os ensinamentos do Alcorão. Pois existem vários tipos de comentários. Os versículos mais expostos no Risale-i Nur são aqueles concernentes as verdades da crença, como os Nomes Divinos e os atributos e a atividade divinas no universo, a Divina existência e unidade, ressurreição, profecia, divina determinação ou destino, e os deveres do homem de adoração.

Bediuzzaman explica como o Alcorão se dirige a todos os homens, de todas as épocas de acordo com o seu grau de compreensão e desenvolvimento; Há uma face que olha para cada era. O Risale-i Nur, então, explica essa face do Alcorão que se refere a essa era. Vamos agora olhar para outros aspectos do Risale-i Nur relacionados a este ponto.