Diz-se que Nursi viveu em um período de transição – os últimos anos do Estado Otomano e os anos de formação da República da Turquia. Ele viajou bastante e viu pessoalmente a ignorância, pobreza e conflito interno que prevaleciam na Anatólia e no mundo islâmico em geral. Em 1911, na Mesquita dos Omíadas (em Damasco), ele explicou, para cerca de 10 mil pessoas, incluindo uma centena de estudiosos de alto nível, por que o mundo islâmico estava preso na “Idade Média”: o crescente desespero, perda de veracidade nas esferas social e política, o amor pela beligerância e a ignorância dos próprios laços entre os crentes; despotismo generalizado; egocentrismo. Ele sugeriu como cura e esperança, veracidade e confiabilidade, amor mútuo, solidariedade e liberdade de acordo com o Islam – e enfatizou o seguinte:

A história nos mostra que os muçulmanos progrediram tanto quanto aderiam às verdades do Islam e tiveram o seu poder oriundos da força dessas verdades, enquanto eles se enfraqueceram na mesma proporção em que deixavam de segui-las. O inverso desta realidade é verdade para outras religiões. Seus seguidores progrediram até que a fraqueza na adesão às suas religiões declinaram, então sofreram revoluções e declinaram em proporção ao seu apego.

Nós, muçulmanos tradicionais, que somos estudantes do Alcorão, seguimos as vidências e aceitamos as verdades da crença com razão, intelecto e coração. Ao contrário daqueles que abandonaram as evidências e imitaram cegamente os seus líderes religiosos. Portanto, no futuro, quando a razão, as ciências e o conhecimento dominarem, será o Alcorão, onde cujos decretos e proposições são confirmados pela razão, é que certamente irá dominar. (De “O Sermão de Damasco”).

Se nossas ações refletirem a perfeição das qualidades morais islâmicas e as verdades da crença, os seguidores de outras religiões entrarão no Islam em comunidades inteiras. Mesmo algumas regiões e estados inteiros se refugiarão no Islam.

No seu tempo e em nossa época, a ignorância sobre Deus e o Profeta, paz e benções estejam com ele, a ignorância de comandos religiosos, a indiferença à dinâmica islâmica de prosperidade em ambos os mundos e a ignorância do conhecimento científico moderno foram as principais causas do atraso muçulmano. Ele afirmou que os muçulmanos poderiam se libertar deste atraso apenas através do conhecimento científico moderno e religioso, bem como do pensamento sistemático, e poderiam se proteger contra o desvio apenas adquirindo o verdadeiro conhecimento.

A ignorância foi a fonte da pobreza islâmica, conflitos internos e outros problemas. A ignorância sobre a verdade do Islam, quando adicionada à ignorância da ciência e da tecnologia, resultou em vastas planícies não cultivadas, e a riqueza natural dos muçulmanos começou a fluir aos paises estrangeiros. Embora o Alcorão exija a unidade, os muçulmanos permaneceram divididos mesmo quando suas terras são invadidas e seu povo humilhado.

Ao mesmo tempo, muitos dos intelectuais muçulmanos a quem as massas procuravam para orientação e salvação, foram atraídos pela violenta tempestade de negação da fé que explodiu na Europa. Emergindo no século anterior de uma visão de mundo centrada no ser humano, enraizada no cientificismo, racionalismo e positivismo, bem como das contradições entre a ciência moderna e de uma Igreja anticíclica, esta tempestade gradualmente devastou na Europa a maioria das suas crenças no cristianismo. Como resultado, a Revelação foi forçada a ceder à razão humana.

Este processo, sem paralelo na história, abalou a “construção” de um islam que já era velho e decadente em muitos corações e mentes, em indivíduos e em comunidades. Said Nursi acreditava que este “edifício” poderia ser protegido se os fundamentos do Islam e seus desdobramentos fossem apresentados de modo que as faculdades e à razão das pessoas modernas as pudessem compreender. Segundo ele, o mundo islâmico, tão claramente encalhado nos oceanos da modernidade, navegaria novamente de novo apenas passando por uma renovação exitosa e abrangente em todos os campos do Islam.